Delito Sem Corpo — Editorial Presença, Lisboa, 1996
Com uma intriga que se desenvolve entre Lisboa e Nova Iorque, Delito sem Corpo assume intencionalmente semelhanças com o género policial, sem na realidade se enquadrar em nenhum género determinado. O romance de Ana Gusmão é notável sobretudo pelo seu lado exploratório - apoiado por uma subtilíssima arte de descrever os complexos mecanismos do comportamento a que não falta uma corrosiva dose de humor. Um livro de estreia que aqui se apresenta, mas sobretudo um livro revelador de um excelente domínio da escrita e de uma grande maturidade literária.


Não é o Fim do Mundo — Editorial Presença, Lisboa, 1996
Em plena crise pessoal e um casamento que se foi tornando insustentável, o regresso ao universo familiar é ambíguo, dúbio, protector e opressor simultaneamente. "É como voltar atrás", confessa Patrícia, a personagem central deste novo romance de Ana Gusmão. E a narrativa progride numa oscilação cadenciada entre o presente e o passado da infância e adolescência, sem que, em momento algum, se torne perceptível qualquer ameaça à estrutura da narração ou ao domínio sobre a escrita. Esta flui, conduzida por uma espontaneidade hábil e consequente, que concede, com invulgar maturidade, um papel de relevo ao humor e à ironia. Ingredientes de resto essenciais a uma trama manifestamente pródiga em densidade emocional e psicológica. Não É o Fim do Mundo vem, sem dúvida, confirmar o poder e a sedução de uma escrita capaz de transpor para o universo ficcional as complexidades da teia dos comportamentos e relações humanas e que já se nos havia revelado em Delito sem Corpo, o primeiro romance da autora, publicado pela Presença.


Aves do Paraíso — Edições Asa, Porto, 1997
Laurinda, uma estranha e inquietante mulher-a-dias, com um modo de estar e de pensar muito seus, é o elo de ligação entre elementos aparentemente tão díspares como uma dona de casa, boa esposa e melhor mãe, péssima cozinheira e com tendência para sofrer de angústia e enfado; um jovem de ar apático que gosta de haxixe; um homossexual culto e com alguma veia poética à procura da relação perfeita; uma artesã suíça, expatriada e solitária; uma quarentona sensual e obcecada pelo medo de envelhecer. Pelo meio, muita superstição, espíritos e espiritismo, alguma bruxaria, um quadro de Courbet e reflexões sobre o Mundo, Deus e o Diabo.
Um romance surpreendente que confirma ANG como uma das vozes mais inovadoras da nova ficção portuguesa.


Onda de Choque — Edições Asa, Porto, 1999
Uma paixão obsessiva, um amante estranho, um afogamento, um cão chamado Beckford, um inglês excêntrico e um desconhecido providencial interligam-se para formar um retrato fascinante de Leonor, uma mulher solitária apanhada nas teias de uma relação impossível.
Depois de Aves do Paraíso, ANG confirma com este seu quarto romance uma trajectória literária profundamente pessoal e inovadora.


Das Tripas Coração — Edições Asa, Porto, 2000
Embora educado numa tradição machista, Eduardo é um homem sensível e bem-intencionado
que de repente se vê a braços com uma crise de idade. A monotonia do emprego, a solidão e a aparente incaqpacidade para desenvolver uma relação amorosa estável deprimem-no.
Ainda por cima, tem o azar de ser filho único, sobrinho único, divorciado e pai de um filho com quem se dá mal.
De todas estas desgraças compensa-o a amizade de Daniel, seu companheiro de "imperiais", farras e engates. Mas engatar torna-se cada vez mais complicado e, ainda por cima, Daniel Apaixona-se a sério e deixa-o pendurado.
Resta-lhe o terapeuta, com quem pode desabafar as suas angústias. E Diana.
Mas será que estas duas bóias de salvação serão suficientes para o salvar?
Depois de Aves do Paraíso e Onda de Choque, ANG continua a retratar o país que somose aquilo que somos enquanto personagens do romance da vida.


O Pintor — Edições Asa, Porto, 2004
Um homem aparece numa pequena aldeia costeira. Afável e atraente (apesar do seu aspecto pouco convencional), bom ouvinte e exímio contador de histórias - principalmente sobre a vida dos grandes artistas -, afirma-se como um personagem simultaneamente misterioso e solitário.
É visto amiúde a desenhar na praia, o que suscita a curiosidade de quem habita um lugar onde pouco ou nada acontece. Apresenta-se como pintor retratista e depressa conquista a simpatia (e em alguns casos algo mais) de quem com ele trava conhecimento. Não tarda muito para que se torne o pólo de todas as atenções. As suas teorias sobre a vida e os sentimentos dão volta a muitas cabeças e quando anuncia que não tem dinheiro a confusão é geral. Como modo de saldar as dívidas (e não sò) oferece-se então para pintar o retrato de quem o deseje. E quase todos o desejam: as primas, donas da residencial; Flor, a jovem que resiste ao seu charme; Maria, a amiga de Flor; a velha Catarina; Mariana, a professora; Solange, a dona da papelaria, e o noivo Zé Luís, o bancário; o senhor António, oculista; o doutror Ramalho, farmacêutico; os donos do café; e até o Presidente da Junta de Freguesia, que vê nele um veículo de autopromoção. Nesse microcosmos, em que todos necessitam de todos para que a vida ganhe novos contornos, o pintor vai desestabilizar uma ordem pré-estabelecida que parecia imutável.
ANG faz-nos reflectir sobre as relações humanas, desfazendo teias, recriando afectos e dando forma a um universo simultaneamente interior e social, com os seus pequenos desastres e as suas grandes vitórias.


A Prisioneira de Emily Dickinson — Edições Asa, Lisboa, 2008
Ao mudar-se para um apartamento mobilado onde, como é seu costume, não tenciona permanecer muito tempo, a inquieta e desenraizada Emília estabelece uma inesperada amizade com uma rapariguinha solitária, apaixona-se inesperadamente por um piloto aviador (com quem pretende apenas ter uma relação desapaixonada e descomprometida) e, na ausência deste, é confrontada com a inesperada aparição da sua etérea e misteriosa mulher, cuja extraordinária semelhança com a poeta americana Emily Dickinson a sobressalta e fascina.
Profundamente influenciada pela "Reclusa de Amherst" (uma obsessão que remonta à adolescência e a leva a perder a ilusão de vir a ser poeta) e presa num emaranhado de sentimentos contraditórios Emília escreve "A Prisioneira de Emily Dickinson". Mas a dificuldade em dissociar a realidade da ficção, a sua própria crise existencial e o ritmo encantatório das palavras de Dickinson, vão criando um clima de suspense, ilusão e loucura, até ao inesperado desfecho final.

